Game Design - Tecendo Teorias

3 motivos pelos quais você pode estar se frustrando com seu RPG

Já ouviu falar de Sísifo,o cara condenado a rolar eternamente uma pedra ribanceira acima que sempre retornava para o ponto inicial?

Olá pessoal

Hoje vou abordar um tema que acredito estar nas entrelinhas dos papos sobre “RPG para iniciantes” ou “Bons mestres”, por isso queria tratar alguns problemas invisíveis que, dadas as características sociais e de construção coletiva do nosso hobby, acabam não sendo tão facilmente detectáveis.

1 – Talvez você queira mais do seu jogo do que ele possa entregar

Principalmente pela escassez de opções no início do desenvolvimento do hobby, em particular no Brasil, por ser um país gigante com sérios problemas de distribuição, muitos grupos se enredaram em um sistema específico e tornaram-se “reféns” dele. Pode parecer uma palavra forte mas, por melhor intencionado que um sistema seja em ser genérico (e muitos não são, mas acabam sendo nas mãos de quem o usa regularmente), ele tem limites daquilo que é capaz de fazer. Existem vários tipos de narrativa e, caso você não saiba, boa parte da capacidade de emular uma narrativa vem do sistema.  O que nos leva a um outro possível problema.

2 – Jogo compartilhado, responsabilidades exclusivas

RPG é um jogo coletivo e de criação coletiva. Todos envolvidos querem se divertir em igual proporção, afinal de contas é um hobby. No entanto a tradicional divisão de papéis e a mídia pela qual se aprende o jogo (normalmente alguém lê o manual, tira suas conclusões, e ensina o resto do grupo) provoca um certo desbalanceamento de poder dentro do jogo. O que fatalmente gera um desbalanceamento de responsabilidade, como já diria o tio Ben.

O Mestre, narrador, mediador ou qualquer outro nome maluco que algum designer doidão invente é um jogador com outro papel e só isso. Não recai sobre ele a responsabilidade de fazer o grupo se divertir e nem a ele é dado o divino poder de ter todas as respostas o tempo todo. Ter o fiel da balança exige parâmetros e para isso existem as regras (ou pelo menos teoricamente existem). Divida a responsabilidade com todos na mesa para todos os papéis. E não se engane: personagens protagonistas podem ser também um papel problemático se apenas ele quiser ter o holofote das lentes da narrativa o tempo todo. Deixe todos terem seu espaço para brilhar (e muitos jogos, em suas regras, são explícitos nisso). Claro, sempre existe pessoas que não vão entender o espírito compartilhado e ai passamos para mais um problema.

3 – Pessoas, pessoas e pessoas

Apesar do sistema ser o fiel da balança, o parâmetro das decisões de todos jogadores em um RPG, ele ainda precisa ser interpretado pelas pessoas que o praticam (qualquer semelhança com o Direito na vida real não seria mera coincidência). Isso significa que existem sim pessoas tóxicas, e mesmo ela sendo aquele seu amigo ou amiga de longa data, talvez seja melhor não prosseguir jogando, pois não há sistema que salve. No entanto existe outro problema: As pessoas cansam!

Talvez aquela história que foi super legal, aquele grupo super criativo, ou qualquer outra coisa, está começando a ficar sem ideias. Talvez desgastado pelo tempo ou porque o jogo mesmo tem o seu limite (as pessoas não são criativas o tempo todo, nem aquelas que trabalham com criatividade). Talvez seja uma boa hora de dar uma pausa, buscar novos ares e talvez novos grupos. Aproveite as novas ferramentas como a internet e eventos locais para conhecer novas pessoas e novos jogos. Claro, pode ser que você se depare com pessoas ainda mais tóxicas e aí a recomendação é expressa: FIQUE LONGE! Jogar coisas diferentes com pessoas diferentes pode abrir sua visão para mais tarde retornar com todo gás para seu grupo tradicional.

E por fim…

Claro que talvez você, que esteja lendo esse artigo, não sofra nenhum desses problemas. Tem um mestre maravilhoso que adora ser o “vídeo game” da galera, ou não quer mudar nada e só rolar uns dados e calcular seus bônus para destroçar uns Orcs por aí.  Tá certo também!

No entanto existe muita gente que as vezes reduz seu interesse pelo jogo ou até desiste do hobby por problemas que acabam ficando invisíveis na dinâmica do nosso jogo. Quando todos dialogam e reconhecem que este não é um hobby perfeito e que precisa ser partilhado, tudo flui melhor.

E quanto mais aberto seu coração estiver para o novo, melhor você vai receber tudo que esse jogo pode lhe oferecer. E claro, fazer menos tumulto com as pessoas nos grupos e redes sociais por aí!

Até a próxima.

Julio Matos

Designer de jogos como UED e Goddess Save the Queen, desenvolve jogo há mais de 10 anos e gosta de dar pitacos sobre o hobby  em várias esferas. Também produziu 2 suplementos para Dungeon World: Caçada Sombria e A Ordem dos Últimos, além de uma série de mini jogos e protótipos como The Darkness Knight, Bordeux, Bravos, O Mestre dos Vigaristas e outros que você pode encontrar aqui no blog do ZK Studio. 🙂

6 comentários em “3 motivos pelos quais você pode estar se frustrando com seu RPG”

  1. Muito bom os ganchos, gostaria de complementar que hoje em dia uma comunidade digital de fãs com micro atualizações constantes mantém sempre um gás para o pessoal querer experimentar algo. A Dragão Brasil e a revista da New Order são boas opções que sempre reativa a chama do interesse. Jogos de menores escalas tem uma dificuldade operacional em manter isso (talvez até pela proposta do jogo mesmo). Mas de certa forma, a vida de utilização do jogo torna-se bem reduzida.

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    1. Valeu Alan. Acredito que o estímulo do jogo “menor” (não curto tipificar assim, mas paciência) é ser um momento de “variar” o jogo cotidiano. Não precisa substituir a campanha clássica. O que precisa é todo o grupo está aberto para dar esse gás experimentando algo diferente. 🙂

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  2. maravilhoso! Tô começando a mestrar pra grupo fixo (só mestrava one shot até então) e me sinto frustrada por não saber as regras, até pq estou apresentando o RPG pra uma galera que nunca jogou. Preciso cobrar menos de mim mesma quanto a isso, não tenho como saber decor o livro inteiro.

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    1. Sem dúvida Camila. Até por que, se determinadas coisas começam a exigir mais regras, é interessante também compartilhar isso com jogadores e jogadoras. A gente as vezes se cobra e esquece de distribuir responsabilidades. 🙂

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