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Jogos Brasileiros e o Atelier Invisível

Olá Pessoal

Hoje o artigo é uma olhada rápida sobre o mercado de jogos originais produzidos no Brasil. Já adianto que este artigo é opinativo, ou seja, se baseia na minha percepção como produtor de jogos e participante do mesmo. Não tenho pretensão jornalística de apurar todos os fatos e lados da história, mas quem quiser trazer sua observação e posicionamento será muito bem vindo ao debate! 🙂

 

Bons tempos em que tínhamos espaço em portais de Cultura Nerd. Se você duvida clica na imagem! 🙂

O problema da distribuição

Sim este deveria ser sempre o primeiro tópico a ser abordado em qualquer papo sobre o mercado, mas me parece bastante negligenciado, principalmente quando se utiliza os grupos segmentados em redes sociais para se debater o quanto determinado jogo é ou não conhecido/jogado/vendido. Se você está lendo este artigo pode ser que já conheça o ZK Studio de alguma produção ou foi atraído por uma publicação nossa em grupos segmentados. Ou seja, você já faz parte de um grupo minúsculo de pessoas que não só consome jogos, mas se interessa pela informação sobre eles.

Uma das minhas principais crenças é que os jogos de contar histórias são abordados como uma “Tradição Oral”, ou seja, eles são disseminados principalmente por pessoas que já jogam e que arregimentam outras pessoas para o hobby. Isso é incrível do ponto de vista prático, pois a disseminação é provocada pela paixão do indivíduo por esse passatempo, mas uma praga para a expansão do mercado. Explico: Esses novos jogadores serão, sem dúvida, novos consumidores desses jogos, mas tendem a consumir o mesmo jogo que aprenderam,  isso porque os “RPGs”, como se constituíram ao longo de sua história (recomendo a leitura do livro do John Peterson sobre isso), tinha algo de “incompletude” que só se materializava na ação dos jogadores enquanto jogam. Ou seja, cada pessoa passava adiante o “seu RPG”, o que dificulta, em tese, que aqueles que sejam impactados descubram a miríade de outras possibilidades existentes.

Some a isso nosso problema de distribuição física, que faz com que praticamente todas as grandes cidades no país tenham lojas ligadas ao hobby, mas elas não possuem os jogos produzidos aqui (em alguns casos vendem livros em inglês de jogos famosos) e a distribuição de informação, pois não há nenhum canal de nicho grande que tenha alguma editoria fixa de pautas sobre o assunto (existem muitos canais de sub nicho, mas aí entraríamos na discussão sobre a Internet não ser uma rede, mas sim um grande corredor cheio de portas fechadas).

Um cenário muito complexo para disseminação de inovação, que acaba tornando nossa criação de novos jogos uma prática não só “Artesanal” como também “Invisível”.

 

O Atelier Invisível

O que vou apresentar agora já é enviesado por tratar apenas da minha bolha digital em meus canais sociais e estou ciente disso. No entanto, serve no mínimo para gerar uma pulga atrás da orelha e abrir um debate entre os produtores. Observando uma corrente de Facebook que fazia o desafio de publicar 10 RPGs ao longo de dez dias, desafiando outras pessoas a também fazê-lo, vi uma enxurrada de capas de jogos incríveis e sem nenhuma surpresa vi poucos ou quase nenhum jogo original brasileiro (fico feliz que em alguns casos era os meus jogos, o que por si só já é uma conquista!). Para não ficar no exemplo pessoal, sempre que aparece alguma postagem sobre “Qual melhor jogo Brasileiro?”, “Cite um jogo nacional:”, sempre temos um volume alto de clássicas adaptações feitas por aqui e muito pouco de jogos novos, sendo que existe uma produção forte acontecendo neste momento (Se você tem dúvidas, acompanhe o Lampião Jogos e Jogos A la Carte).

Ou seja, quem produz jogos originais sente-se praticamente trabalhando em um Ateliê Invisível e, não a toa, sempre que rola um concurso de design temos uma expressiva participação de desenvolvedores, já que este é um dos poucos momentos onde eles recebem algum tipo de atenção, com os feedbacks  diretos dos participantes. Em uma edição do Botequim dos Jogos, o Marcos silva teceu uma máxima categórica: “Seguimos fazendo esses jogos malucos que ninguém joga!”

Não podemos em nenhum momento culpar o público por isso, afinal eles gostam daquilo que é lhes é ofertado e claro, pela sua percepção, o que por sua vez retroalimenta o mercado. As streams de jogos que dão mais audiência são sobre jogos badalados estrangeiros famosos. Os Financiamentos que mais rendem retorno as editoras são de lançamentos gringos incríveis. Ninguém pode julgar as pessoas de estarem fazendo “errado”, afinal pelo menos elas estão fazendo algo.

 

A iniciativas precisam ir além das voltadas para nós mesmos!

Os Invisíveis que se Enxergam

Creio que já passamos da fase de desdenhar da qualidade do material produzido aqui ou de investirmos em uma briga sem sentido de “ser independente”, “ser mainstrean”, sendo que não conseguimos nem saber exatamente do que estamos falando nessas discussões. Na prática todos querem distribuir seu material ao maior número de pessoas , motivando-se dessa forma a produzir mais e alcançar novos patamares para sua produção. Só que para isso precisamos começar a nos enxergar uns aos outros, empoderar bons trabalhos e ter uma posição pró-ativa frente ao mercado.

O ZK Studio tem o privilégio de ter um público que dá atenção aos seu projetos, mas ainda assim, somos completos desconhecidos em relação a outras produções, o que pode levar esta opinião e as sugestões a ser interpretada como uma grande “cagação de regra” sobre o mercado. É um risco que estamos dispostos a correr, pois talvez se pensarmos um pouco mais no mercado como um todo sejamos capazes de expandir nosso alcance.

Assumido esse risco, resolvemos sugerir 4 atitudes para que possamos melhorar nosso relação invisível com o mercado, buscando superar o nosso entrave de distribuição e a inércia do público interessado.

 

Invista em comunicação

Falar de forma atrativa de sua produção é um primeiro passo ara conseguir minimamente atrair um público para ela. Encontre pontos de contato com o interesse geral, crie boas matérias, fale de seu desenvolvimento e divulgue seus playtestes. Tente não ser repetitivo e encontrar formas de falar constantemente de seu jogo sem ser intrusivo.

Alguns produtores acreditam que “spamar” nos grupos o link sobre seu jogo é uma solução útil. Pode ser um desastre, pois algumas pessoas participam de vários grupos e você vai “inferniza-la” com um mesmo post publicado ao mesmo tempo. Divida assuntos, converta para a linguagem de quem você está falando (fale com elas e não para elas). Obviamente isso da muito trabalho, mas gera um pouco mais de resultado do que não fazer.

 

Produza mais e não negligencie o digital

Busque jogos que você gosta e produza material para eles, mostre que você está interessado em expandir a experiência de seu público. Hoje existem muitas plataformas onde você pode distribuir seu material digital e até cobrar por isso. Expanda os jogos de outros e se mostre para o público. Para que competir com o jogo mais famosos se você pode surfar na sua onda e ganhar atenção para o seu trabalho? Um exemplo prático é o trabalho que a gente vem fazendo com materiais para Dungeon World, que existem exclusivamente como PDF e já venderam quantidades expressivas, se considerarmos que a percepção média é que o público “só consome PDF de forma pirata”. Confiram abaixo alguns números de venda da Caçada Sombria e da Ordem dos Últimos no formato exclusivo digital.

Vendas Aventura Caçada Sombria em PDF Font: Analytics Secular Games
Vendas Suplemento A Ordem dos Últimos em PDF Font: Analytics Secular Games
Vendas Combo Suplementos ZK Studio + DW em PDF Font: Analytics Secular Games

Sendo que a Caçada Sombria (Grim Hunt) já teve sua versão em inglês incorporada a um Bundle of Holding que vendeu quase 1800 cópias e a A Ordem dos Últimos (The Order of the Last) ganhará sua versão em inglês em breve. Ou seja, produzir mais material, inclusive para outros jogos, só tende a tornar sua produção mais conhecida.

Vá a eventos

Este conselho serve pra mim também que tenho conseguido ir a poucos eventos por conta de tempo, mas é fundamental conhecer e ver o que as pessoas estão efetivamente jogando para além do que comentam na internet. Claro que participar de eventos de escopo nacional tem um custo relevante e as vezes proibitivo, mas existem muitos eventos locais que podem ajudar você a se conectar com algum público. Se não existe nenhum evento na sua região, talvez seja uma boa ideia criar um e ver a resposta das pessoas.

Quer você acredite ou não, existe uma grande massa de pessoas que jogam RPG e que não estão em grupos do Facebook. Elas sequer sabem que existe uma edição nova de Dungeons & Dragons, elas ainda jogam o primeiro jogo que conheceram. Trabalho de formiga, mas se for feito por várias frentes o resultado pode vir a ser relevante.

Empodere a produção dos outros

Por fim, mas não menos importante, cabe responder a pergunta provocativa que ilustra este artigo: “Quantos jogos originais brasileiros você conhece?”

Encontrá-los pode, inclusive, ser um problema, e por isso criamos um álbum na comunidade Indie RPG para ajudar as pessoas a colocarem suas produções e também conhecerem as produções de outros. Na época desse artigo já temos mais de 50 títulos cadastrados. Será que ali não tem algum jogo que você possa criar algo sobre? Ou quem sabe falar dele para um grupo que você conheça. Quanto mais pessoas interessadas em novidades você arregimentar agora, mais público terá para sua produção amanhã. É um círculo virtuoso!

 

2 comentários em “Jogos Brasileiros e o Atelier Invisível”

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